Frank Poems: POEMS BY PESSOA

Portrait of Pessoa, 1914 │ Wiki

My translations of twelve poems by Fernando Pessoa

PRETEND POEM

Poets are perfect pretenders.
Their pretence is so real
They’d have us think pretence
The pain they really feel.

And the reader reading their poems
Feels only too well
The pain the poets pretend,
Not the pain they really feel.

And so we’re entertained
By each stop and start
Of that little clockwork train
We call the heart.

AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

ILLUSION

Place your hands on my shoulders
And give me a kiss…
My life in ruins,
My soul all amiss.

I’ve no idea why
I seem to exist.
I’m a being who sees
But sees all amiss.

Place your hands
Upon my head…
In my dreams
I know all this.

ILUSÃO

Põe-me as mãos nos ombros…
Beija-me na fronte…
Minha vida é escombros,
A minha alma insonte.

Eu não sei porquê,
Meu desde onde venho,
Sou o ser que vê,
E vê tudo estranho.

Põe a tua mão
Sobre o meu cabelo…
Tudo é ilusão.
Sonhar é sabê-lo.

THE VILLAGE BELL

Sorrow in your sound,
My village church bell,
In the calm afternoon,
Deep inside me as well.

So slow and so sad
As if tired of life
With the sound of for ever
In your very first strike.

As I walk on alone
You’re so loud and real
But within me how far,
How dreamy you feel!

Each time you toll
The blue sky seems clearer,
The past grows more distant
As my sorrow draws nearer.

SAUDADE

Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

HAPPINESS

When alone I’d prefer not to be
But I’d be better alone when I’m not.
i.e. I always want
To be what I’m not.

Happiness would be others
If others could be happy,
i.e. their happiness wouldn’t be happy
In me.

People try to make something
Of nothing, which is good,
i.e. they’d be completely lost
Making nothing of nothing.

FELICIDADE

Se estou só, quero não estar,
Se não estou, quero estar só,
Enfim, quero sempre estar
Da maneira que não estou.

Ser feliz é ser aquele.
E aquele não é feliz,
Porque pensa dentro dele
E não dentro do que eu quis.

A gente faz o que quer
Daquilo que não é nada,
Mas falha se o não fizer,
Fica perdido na estrada.

LONELINESS

Sometimes if I forget I’m alone
I remember
Others are alone like me,
Except they’ve never
Been me.

And when I really am
Alone
I’m free but sad,
Free to go
Nowhere alone.

But life, I think,
If truly understood
Is all of this and more.
That’s why sometimes
I forget I’m me.

SOLIDÃO

Quando estou só reconheço
Se por momentos me esqueço
Que existo entre outros que são
Como eu sós, salvo que estão
Alheados desde o começo.

E se sinto quanto estou
Verdadeiramente só,
Sinto-me livre mas triste.
Vou livre para onde vou,
Mas onde vou nada existe.

Creio contudo que a vida
Devidamente entendida
É toda assim, toda assim.
Por isso passo por mim
Como por coisa esquecida.

DEATH

Death is a bend in the road.
To die: to be unseen.
If I listen hard I’ll hear you,
Alive like me.

Earth came from sky.
A lie has no nest.
No one’s ever lost
On the true road west.

MORTE

A morte é a curva da estrada,
Morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te oiço a passada
Existir como eu existo.

A terra é feita de céu.
A mentira não tem ninho.
Nunca ninguém se perdeu.
Tudo é verdade e caminho.

PRETENCE

What I write, they say,
Is all pretence and lies.
But no, it’s just my way
Of feeling is to fantasise.
I don’t use my heart.

All my dreams and all I do,
And all that fades or fails,
Will grow anew
As something else,
Something beautiful.

That’s why I write
About nowt.
Fancy-free but serious
About nowt.
Feeling is up to you.

FINGIMENTO

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

SOULS

Who can fathom the depths
Of someone else?
Another soul, another universe,
Incommunicable.
Ununderstandable.

The only soul we understand
Is ours,
The others being looks, gestures, words
And the faintest hint of similarity
Beneath.

ALMA

Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.

SECOND THOUGHTS

Often I’m inclined to think
I’m sentimental,
Having so much sentiment,
Until, on second thoughts,
I realise it’s all just thought
Unfelt.

All of us who live
Have a life we live
And another we think
And the only life we have
Is the one that’s divided,
Real/unreal.

But no one alive can tell
Real from un,
Unreal from real.
So we live in a way
In which which life we live
Requires some thought.

PENSAR

Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

FATE ACCOMPLI

Death comes soon
Because vita brevis
And a moment makes light
Of what we thought heavy.

Aims not attained,
Love but begun,
And winners hardly know
What they have won.

And anyway death
Crosses out what’s uncertain
In the big book of fate
Which God has left open.

CEPTICISMO

A morte chega cedo,
Pois breve é toda vida
O instante é o arremedo
De uma coisa perdida.

O amor foi começado,
O ideal não acabou,
E quem tenha alcançado
Não sabe o que alcançou.

E a tudo isto a morte
Risca por não estar certo
No caderno da sorte
Que Deus deixou aberto.

ESCAPE

No sooner was I born
Than they locked me in me.
Ah! but I fled.
I’m an escapee.

If one gets tired
Of same place and same me
Who would not suffer
Ennui?

My soul searches for me
But I’m away on my steed
Hoping she’ll never
Succeed.

Being one is a jail,
Being me is not being,
But I’m away on my steed,
Fleeing.

EVASÃO

Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu não é ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.

TRUTH

In this world of forgetting
We’re shadows of our selves
In the real world of souls
Whose gestures and goals
Are here half forgotten.

Fog and confusion
Is what we have here.
The life light from there
So bright and so clear
Seems here an illusion.

But if, for a second,
You stop, you might see
As if in dappled light through leaves
A more than real reality
Beckon.

And then you might know
Within what’s fleeting and faint,
In what your imagination paints
And in what you long to imitate,
Your soul.

Your body but a shade,
A lie, but which senses
The tug of transcendence,
Of a truth that transcends
Time and space.

VERDADE

Neste mundo em que esquecemos
Somos sombras de quem somos,
E os gestos reais que temos
No outro em que, almas, vivemos,
São aqui esgares e assomos.

Tudo é nocturno e confuso
No que entre nós aqui há.
Projecções, fumo difuso
Do lume que brilha ocluso
Ao olhar que a vida dá.

Mas um ou outro, um momento.
Olhando bem, pode ver
Na sombra e seu movimento
Qual no outro mundo é o intento
Do gesto que o faz viver.

E então encontra o sentido
Do que aqui está a esgarar,
E volve ao seu corpo ido,
Imaginado e entendido,
A intuição de um olhar.

Sombra do corpo saudosa,
Mentira que sente o laço
Que a liga à maravilhosa
Verdade que a lança, ansiosa,
No chão do tempo e do espaço.

26/07/2022

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